Noite perde força na 14 de Julho, que acumula despedidas de bares
Enquanto estabelecimentos fecham ou deixam a via, empresários apontam dificuldades pela ausência de políticas

A Rua 14 de Julho, que há poucos anos ganhou força como ponto de encontro da vida noturna de Campo Grande, vê parte de seus bares fechar as portas ou procurar novos endereços. Em menos de três meses, vários estabelecimentos encerraram atividades no local, como o Mistura e o Má Donna Bar.
RESUMO
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A vida noturna da Rua 14 de Julho, em Campo Grande, enfrenta uma onda de fechamentos de bares tradicionais. Locais como Mistura, Madonna e Pizza Pub encerraram as atividades ou decidiram mudar de endereço devido à queda no movimento, altos custos operacionais, concorrência desleal e problemas de segurança. Empresários cobram maior apoio do poder público, fiscalização e policiamento preventivo. Apenas alguns estabelecimentos, como o Copo Bar, decidiram permanecer na região.
Agora, o Pizza Pub, o segundo bar a se instalar na via após também desbravar o Centro, despede-se nesta sexta-feira (23) da 14 de Julho. Por trás das saídas, empresários relatam queda no movimento, insegurança, concorrência e, consequentemente, dificuldades para manter as contas em dia.
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Para quem frequentava a região, a mudança também é sentida. A jornalista Thayssa Maluf conheceu a vida noturna da 14 durante uma transmissão do Oscar no Copo Bar. “Ali a 14 já me pegou e percebi que ali era meu lugar”, lembra. Depois vieram o samba das segundas-feiras no Má Donna, as visitas ao Mistura e as sextas no Pizza Pub, que se tornaram compromissos.
Hoje, boa parte desse roteiro já não existe. Thayssa também deixou de frequentar a região com a mesma frequência após presenciar uma briga em um estabelecimento próximo ao Má Donna. Por receio de novas confusões, passou a restringir suas saídas ao Balaio, que fica na mesma rua, mas a algumas quadras de distância.
Entre os empresários que saíram e os que permanecem, as reclamações se repetem: falta de segurança, conflitos relacionados ao som, concorrência desleal e ausência de apoio público. Segundo estimativa de Bruno Morais, sócio do Copo Bar, atualmente há cerca de dez bares na região.
Do movimento às contas - No Mistura, o fechamento foi uma decisão das irmãs que administravam o negócio. Graciela Minna conta que abriu o bar no fim de agosto de 2024, quando a região atraía novos estabelecimentos e frequentadores. Dois anos depois, em agosto de 2026, encerrou as atividades.
“No início, foi muito bom. Estava indo muita gente”, recorda.
A empresária afirma que os clientes sentavam, tomavam cerveja, pediam comida, acompanhavam a programação musical e o movimento permitia pagar as despesas.
Só o aluguel custava R$ 5,7 mil por mês. Com o IPTU, o valor chegava a R$ 6,2 mil, segundo Graciela. Para cada apresentação, havia ainda o pagamento de aproximadamente R$ 1,5 mil a R$ 2 mil à banda, R$ 500 pela locação do som e a contratação de profissionais para trabalhar naquela noite.
A empresária, que atua como escrevente cartorária, tinha o bar como segunda fonte de renda. Com a irmã, passou a discutir se valia a pena continuar diante da redução de clientes e das dificuldades que percebiam na rua.
“Antes da dívida ficar maior, a gente resolveu encerrar”, afirma.
Graciela diz que a segurança foi o principal fator para sair. Segundo ela, amigas e clientes deixaram de frequentar a região por medo de brigas. A empresária cobra policiamento preventivo, com agentes circulando a pé, e considera insuficiente a presença de uma viatura parada em um único ponto.
Concorrência e fiscalização - A proprietária do Mistura também relata dificuldades para competir com vendedores e outros pontos comerciais que passaram a oferecer bebidas a preços menores. Na avaliação dela, a diferença de despesas entre as operações prejudicava os bares que mantinham equipe, estrutura e atrações musicais.
Graciela afirma ter participado de reuniões com representantes da prefeitura para pedir fiscalização e regras aplicadas a todos. Sua cobrança, diz, não era pela retirada de quem trabalhava na rua.
“Não acho que tenha que acabar com os ambulantes”, ressalta. Ela defende a regularização dos vendedores e o cumprimento das exigências sanitárias para o preparo e a comercialização de bebidas.
Apesar do fechamento, não descarta voltar a ter um bar, em outro endereço ou mesmo na região, caso encontre condições que considere adequadas. Por enquanto, não pretende retomar o negócio.
Má Donna prepara mudança - O proprietário do Má Donna Bar, Kayky Sanches, também descreve um começo de movimento intenso. O bar abriu em julho de 2024, quando o Copo e o Pizza Pub já funcionavam na região. A aposta era reunir programação cultural e vida noturna em uma área que ele via como promissora.
“Começou a vir gente de todos os lados da cidade”, lembra.
Segundo Kayky, o público ultrapassou o círculo inicial de conhecidos e transformou o estabelecimento em ponto de encontro. Para ele, o fechamento da rua ao trânsito ampliou a circulação de pessoas, mas não foi acompanhado pela estrutura necessária. Ele relata que os empresários pediram suporte para atender ao público.
“Se o poder público quer fechar, o poder público tem que ajudar a cuidar”, afirma.
O empresário cobra fiscalização e segurança e relata conflitos com o volume de som de estabelecimentos vizinhos. Também afirma que um episódio de intervenção policial com gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar frequentadores contribuiu para afastar clientes.
Segundo Kayky, o Má Donna Bar não registrou brigas entre clientes dentro do bar durante o período em que funcionou na 14. Ainda assim, diz que ocorrências nas proximidades afetavam a imagem do negócio.
Com a perda de movimento, ficou mais difícil sustentar a operação. O estabelecimento chegou a ter oito funcionários e custos totais próximos de R$ 60 mil mensais, conforme o proprietário, incluindo equipe, manutenção e programação artística. As despesas do imóvel, sem funcionários, ficavam em torno de R$ 12 mil.
A decisão foi deixar a rua e preparar a reabertura em uma localização que considera mais tranquila.
Último karaokê - No Pizza Pub, a despedida desta sexta-feira (23) marca o encerramento do atendimento no endereço e o estabelecimento está à venda. A história da casa começou na Rua Barão do Rio Branco, antes da mudança para a 14 de Julho.
Em nota publicada nas redes sociais, os responsáveis relembraram quase quatro anos de trabalho e agradeceram a clientes, músicos, parceiros e colaboradores. Shows, rodas de samba, karaokê e encontros fizeram parte dessa trajetória.
“Cada pizza, cada encontro, karaokê, show e roda de samba ajudaram a construir a nossa casa na 14”, escreveram.
Procurado pelo Campo Grande News, o proprietário Jean Vernochi critica a segurança no Centro e cobra maior presença do poder público. “O que eu posso falar sobre a segurança ali no centro é que ela não existe”, afirma.
Ele também questiona a estrutura da GCM (Guarda Civil Metropolitana) para atender a região e reclama da falta de assistência às pessoas em situação de rua. Jean não detalhou os motivos da venda e do encerramento do atendimento.
Da revitalização ao corredor cultural - A movimentação noturna da 14 de Julho ganhou força depois da revitalização da rua, concluída em 2019 e, principalmente, após a pandemia. Além das melhorias na infraestrutura, o projeto de requalificação urbana previa a necessidade de ativações comerciais para estimular a ocupação do espaço e fortalecer o chamado terceiro turno, período em que o comércio tradicional fecha as portas e a região passa a receber atividades de lazer, gastronomia e cultura.
A vocação cultural da via também ganhou reconhecimento legal, com sua classificação como corredor cultural em 2024. A proposta é favorecer a realização de atividades artísticas e culturais, ampliando a circulação de pessoas e a ocupação dos espaços públicos.
Nesse contexto, a chegada dos bares representou justamente uma forma de movimentar o Centro fora do horário comercial. Agora, com a saída de estabelecimentos que ajudaram a consolidar essa ocupação, empresários questionam a falta de estrutura, segurança e incentivo para manter a atividade noturna.
Quem fica - O Copo Bar abriu em outubro de 2023 e, segundo Bruno Morais, foi o primeiro dessa leva de estabelecimentos a apostar na rua. Depois chegaram o Pizza Pub, o Má Donna Bar, o Mistura e outros negócios, ampliando as opções de gastronomia e música.
Bruno lembra que o movimento intenso do primeiro ano permitiu reinvestir parte do faturamento no espaço. Depois, o público começou a diminuir, com queda mais acentuada no último ano.
Atualmente, o Copo tem despesas básicas de aproximadamente R$ 20 mil mensais, incluindo cerca de R$ 4 mil de aluguel, e emprega cinco pessoas, além dos dois sócios que trabalham no local. Bruno afirma que, apesar das dificuldades, pretende continuar.
Para o empresário, faltou planejamento para organizar o crescimento da ocupação noturna na via. Ele relata pedidos por banheiros, limpeza, segurança e fiscalização durante o período de maior circulação, em que a via tinha o trânsito fechado, e cobra incentivo à programação cultural.
O empresário também cita o som alto de estabelecimentos próximos como um problema para quem procura conversar, comer e permanecer no bar com tranquilidade.
Sua percepção da segurança atual, porém, é diferente da relatada pelos empresários que saíram. Bruno considera que a região está mais tranquila, diz que as brigas se tornaram raras e afirma nunca ter registrado uma dentro do Copo. Ainda assim, pede maior presença policial, inclusive depois da meia-noite, horário em que, segundo ele, os bares encerram as atividades, mas ainda há pessoas nas ruas.
Às sextas-feiras e aos sábados, conta, o movimento continua. Sua decisão de permanecer está ligada à convicção de que a 14 conserva potencial para atrair frequentadores, desde que os negócios encontrem condições para manter as portas abertas.
Bruno também defende que a Rua 14 de Julho seja valorizada como destino gastronômico e turístico. “Poderia ser a Avenida Bom Pastor do centro”, compara. Segundo ele, as reuniões com o poder público passaram a se concentrar no policiamento, sem continuidade nas discussões sobre turismo e desenvolvimento da região.
Para isso, o empresário cobra incentivo à programação cultural e melhorias na estrutura e na segurança, que são previstas na lei sancionada que transformou a principal rua do comércio da região central em um corredor cultural.
A reportagem solicitou posicionamento da prefeitura de Campo Grande e da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul e até a publicação não teve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
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