Cidades

Delegado propõe usar tornozeleira e abrir mão de distintivo para sair da prisão

Delegado também aceita entregar armas, ficar afastado da polícia e perder acesso a sistemas

Por Lucia Morel | 29/10/2026 16:33
Delegado propõe usar tornozeleira e abrir mão de distintivo para sair da prisão
Hoffman D’Ávila Cândido durante uma coletiva de imprensa na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico). (Foto: Clara Farias)

A defesa do delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa pediu à Justiça a revogação da prisão preventiva sob o argumento de que ele não oferece mais risco à investigação da Operação Infiltrados. Os advogados sustentam que o cumprimento das buscas, a apreensão de documentos e equipamentos e o oferecimento da denúncia modificaram as circunstâncias que justificaram a prisão. O pedido chegou à 8ª Vara Criminal de Campo Grande ontem e ainda não foi analisado, apesar da tarja de "urgente" na petição.

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Os advogados José Roberto Rodrigues da Rosa e João Pedro da Silva Fialho afirmam que as autoridades já reuniram os principais elementos da investigação e que não existem fatos recentes que demonstrem tentativa do delegado de destruir provas, ameaçar testemunhas ou interferir nas apurações. A defesa propõe substituir a prisão por medidas como tornozeleira eletrônica, suspensão das atividades policiais, bloqueio de acesso a sistemas de segurança e proibição de contato com outros investigados.

Hoffman permanece preso em uma cela da Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros), em Campo Grande. A Justiça decretou sua prisão preventiva em 14 de setembro, dez dias antes da deflagração da Operação Infiltrados, que investiga suspeitas de envolvimento de policiais civis com uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas.

Segundo a defesa, a decisão inicial considerou o risco de os investigados descobrirem a operação, ocultarem provas ou utilizarem o acesso a sistemas policiais para comprometer as diligências. Os advogados argumentam que essa situação mudou em 24 de setembro, quando as equipes cumpriram as ordens judiciais e recolheram documentos e equipamentos eletrônicos.

No pedido, a defesa destaca que as autoridades apreenderam aparelhos eletrônicos, mídias, uma agenda, um caderno e um sistema de câmeras durante as buscas na residência do delegado. Conforme os advogados, o registro da diligência não aponta apreensão de drogas, dinheiro sem origem comprovada ou arma particular.

Os policiais também realizaram buscas no gabinete de Hoffman na Delegacia de Terenos. A defesa afirma que ele permitiu o acesso ao local e que a equipe não recolheu materiais naquela unidade.

"Desde o cumprimento da ordem (prisão), não foi indicado ato superveniente pelo qual Hoffman tenha coagido pessoa, destruído prova já arrecadada, acessado sistema policial, violado ordem judicial ou organizado evasão. A ausência desse dado não elimina todo risco imaginável, mas impede que a prisão seja mantida como prevenção genérica contra possibilidades indeterminadas", ressalta o pedido dos advogados.

Outro argumento é que o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) comunicou, em 25 de setembro, o cumprimento das medidas e não se opôs ao acesso dos advogados aos documentos da investigação. Para a defesa, essa manifestação demonstra que o risco de comprometimento das diligências diminuiu.

A defesa sustenta que a gravidade das acusações não basta para justificar a continuidade da prisão sem a demonstração de um perigo concreto e atual. Segundo os advogados, o afastamento da atividade policial e a restrição de acesso a informações institucionais poderiam impedir eventuais interferências no andamento do processo.

Assim, os advogados propõem que o delegado permaneça sob monitoramento eletrônico, compareça periodicamente à Justiça, entregue o passaporte e não deixe Campo Grande ou Mato Grosso do Sul sem autorização judicial. O pedido também prevê recolhimento domiciliar noturno, proibição de contato direto ou indireto com investigados e testemunhas e impedimento de entrar em delegacias, unidades de inteligência ou locais onde a polícia armazena drogas e objetos apreendidos.

Os advogados oferecem ainda a suspensão do exercício da função policial, o bloqueio de sistemas como Sigo, Córtex e Infoseg e o recolhimento de armas, munições, carteira funcional, distintivo e credenciais.

A defesa argumenta que essas restrições eliminariam os instrumentos que, segundo a acusação, poderiam permitir ao delegado influenciar testemunhas, acessar informações sigilosas ou interferir nas apurações.

Acusações - Na denúncia apresentada pelo Ministério Público, Hoffman enfrenta acusações relacionadas à organização criminosa, desvio de recursos públicos, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e embaraço à investigação.

A acusação atribui ao delegado uma posição de comando dentro do esquema investigado. Entre os episódios mencionados estão suspeitas envolvendo apreensões de drogas, o destino de parte de um carregamento de 793 quilos de maconha e irregularidades no encaminhamento de celulares apreendidos em Bela Vista.

Esse caso foi sugerido por leitor que enviou mensagem através das redes sociais. Também é possível entrar em contato pelo canal Direto das Ruas.

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