Cidades

Caminhões em alta velocidade são "armas de destruição em massa"

Policial rodoviário federal defende mudança na lei para que tacógrafos possam ser usados para punir infratores

Gabriel de Matos | 15/07/2023 17:17
Caminhões em alta velocidade são "armas de destruição em massa"
Documento de caminhão, relatório de tacógrafo e veículo (Foto: PRF)

Policial rodoviário federal há duas décadas, Tércio Baggio escreveu artigo defendendo mudanças na legislação para que os registros dos tacógrafos (equipamentos que documentam a velocidade empregadas por veículos pesadas) possam ser usados para punir caminhoneiros infratores. Ele chega a comparar carretas com toneladas de carga transitando em alta velocidade a "armas de destruição em massa". 

Denuncia ainda a existência de organizações de caminhoneiros via rádio e grupos de mensagem para driblar fiscalização. O policial fala em chamados "crimes intocáveis" para exemplificar o que vê na prática, durante os 20 anos de trabalho nas rodovias federais.

Ele se lembra de um caminhão bitrem que transitava a 147 km/h na BR-163 em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, pouco antes de passar pela fiscalização. O veículo transportava 50 toneladas de carga, pesava 74 toneladas no total e a velocidade estava registrada no tacógrafo, mas a PRF nada pôde fazer, porque não houve flagrante com radar, por exemplo. 

"Para se ter uma ideia do que representa isso [um caminhão de 74 toneladas 147 km/h], um avião comercial Airbus A320, pousa com peso semelhante, e precisa de 1,5 quilômetro para parar. É certo que a velocidade da aeronave é bem maior, durante o pouso (cerca de 250km/h), mas  tem a seu favor freios feitos para suportar altíssimas temperaturas e o apoio de resistência de reversos e outras estruturas aerodinâmicas que lhe permitem parar nessa distância", ponderou, sobre a impossibilidade do motorista conseguir frear a tempo de evitar um acidente, por exemplo.

O policial argumenta que esse tipo de velocidade é incompatível com a segurança e que os caminhoneiros que dirigem tão rápido deveriam ser punidos com mais severidade. Baggio pede que as autoridades tomem medidas para proteger a vida dos motoristas e passageiros. 

As orientações para motoristas de veículos menores que pegam as rodovias e estradas dentro e fora de Mato Grosso do Sul é evitar ficar longe de veículos de carga. "Se algum deles encostar para te ultrapassar, tente ganhar distâncias para frente ou deixar passar o quanto antes", explica Baggio.

Ele ressalta ainda o cenário crítico não é diferente dos outros estados. "Não muda muito em relação a quase todos os estados. Eles sabem onde a polícia costuma fiscalizar e se ajudam mutuamente quando um radar é instalado".

O policial rodoviário afirma que a fiscalização por meio de radares não é suficiente. "Em qualquer país sério, motorista de caminhão com essa velocidade sentaria na frente de um juiz e teria sua CNH suspensa ou cassada de forma célere. No Brasil, a PRF vê a infração e libera sem poder fazer algo concreto, a não ser, claro, quando ele já causou o acidente e o tacógrafo evolui, de mero registro, para prova criminal em um homicídio no trânsito que não se conseguiu evitar em fiscalização. No Brasil é assim. A tragédia é anunciada aos quatro ventos, mas só se faz algo após sua materialização". 

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