Cidades

Antes do Parque dos Poderes, MS planejou torre de 11 andares para o governo

Projeto de Sérgio Bernardes, com 33 metros de altura, foi abandonado; Burle Marx também participou dos estudos

Por Inara Silva | 08/11/2026 08:08
Antes do Parque dos Poderes, MS planejou torre de 11 andares para o governo
Maquete histórica mostra projeto de Sérgio Bernardes para a Governadoria de MS. (Imagem: reprodução)

Antes dos prédios baixos cercados por árvores, o Parque dos Poderes em Campo Grande poderia ter sido uma construção de 11 andares e 33 metros de altura, projetada para concentrar a administração do recém-criado Mato Grosso do Sul. A proposta do arquiteto Sérgio Bernardes surgiu em 1979, durante o governo de Harry Amorim Costa, mas foi deixada de lado por seu sucessor, Pedro Pedrossian, que optou por distribuir as secretarias estaduais em edifícios integrados à paisagem.

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Com uma estrutura geométrica que se projeta em diferentes direções a partir de um núcleo central, o edifício seria destinado à Governadoria e reuniria as secretarias estaduais. Imagens históricas e uma maquete produzida por estudantes de Arquitetura e Urbanismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) ajudam a visualizar a proposta que nunca saiu do papel.

Considerado um dos grandes nomes da arquitetura moderna brasileira, Sérgio Bernardes ganhou reconhecimento nacional e internacional por seus projetos inovadores, marcados pela ousadia estrutural e pela experimentação de formas e materiais. O nome do profissional aparece entre os primeiros estudos investigados pelo professor Júlio Botega, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFMS.

Maquete construída por estudantes de Arquitetura e Urbanismo da UFMS reproduz o projeto de Sérgio Bernardes para a Governadoria de Mato Grosso do Sul. (Foto: Inara Silva)

Na época, Mato Grosso do Sul ainda estruturava sua administração. Criado em 1977 e instalado em 1979, o Estado precisava organizar os órgãos públicos e consolidar Campo Grande como Capital e a construção de uma sede administrativa fazia parte desse processo.

Segundo Botega, Sérgio Bernardes desenvolveu os estudos iniciais no Rio de Janeiro, sem a realização de concurso. A proposta concentrava a administração estadual em um único edifício, solução diferente da configuração que acabaria sendo adotada.

Registros encontrados pela pesquisa mostram uma composição arquitetônica pouco convencional. Vista de cima, a construção apresenta volumes distribuídos simetricamente implantados em uma grande área circular conectada ao sistema viário.

Essa configuração foi reproduzida em uma maquete construída por universitários durante a disciplina Construir e Habitar IV, ministrada por Botega. Exposta pela universidade, a peça permite observar a organização geométrica do edifício e recuperar visualmente uma das primeiras propostas para o centro administrativo estadual.

Outro nome de projeção nacional e internacional que participou dos primeiros estudos para o novo Estado foi o paisagista Roberto Burle Marx. Referências sobre ele foram identificadas pela equipe de Botega em documentos relacionados ao planejamento e à conservação da área que hoje integra o Parque Estadual do Prosa. Os desenhos originais, entretanto, ainda não foram localizados. Sem esse material, a pesquisa não consegue determinar todos os elementos previstos nem estabelecer quais características da concepção inicial foram incorporadas ao parque.

Para Botega, recuperar a participação de Bernardes e Burle Marx é parte do trabalho de reconstrução da história do centro administrativo, cujos primeiros projetos permanecem pouco conhecidos.

Professor Julio Botega ao lado de uma outra maquete de prédio do Parque dos Poderes (Foto: Inara Silva)

Outro palácio que ficou no papel - Anos depois da proposta de Sérgio Bernardes, outro projeto de sede do Executivo também deixou de ser construído. O Palácio do Governo, desenvolvido por arquitetos de Mato Grosso do Sul, entre eles Walter Cortez, integrava o planejamento posterior do Parque dos Poderes.

Segundo Botega, dos dez edifícios previstos nessa configuração do parque, nove foram construídos: oito secretarias e o Palácio Popular da Cultura, atual Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo. Apenas o Palácio do Governo não se concretizou.

Longe do centro - A investigação da UFMS também procura compreender como a construção do Parque dos Poderes alterou a organização de Campo Grande, transformada em Capital com a criação de Mato Grosso do Sul.

Na avaliação de Botega, a escolha de uma área afastada da ocupação urbana consolidada, que chegava aproximadamente à Avenida Ceará, seguia uma lógica semelhante à de Brasília, que foi concentrar as instituições públicas em um centro administrativo separado das áreas tradicionais de circulação da população.

Ainda em fase inicial, a pesquisa busca documentos e registros que ajudem a reconstruir as decisões tomadas durante a implantação do centro administrativo. Essas questões integram o estudo desenvolvido pela UFMS para subsidiar a discussão sobre o tombamento nacional do Parque dos Poderes. A proposta considera não apenas os edifícios, mas também o traçado das vias, a organização dos espaços e a vegetação preservada.

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