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Semiótica: uma ferramenta para compreender o mundo

Por Bruno Dalto do Nascimento (*) | 29/10/2026 12:30

Na escola, a gente tinha aulas de interpretação de texto e aprendia a compreender histórias, identificar intenções e ler as entrelinhas. Muitos de nós tivemos contato com esse tipo de conteúdo por meio de livros didáticos que ensinavam a ir além do que estava escrito. Talvez a gente não soubesse na época, mas já estava entrando em contato com questões fundamentais para a semiótica. Em termos simples, a semiótica estuda como os sentidos são produzidos, organizados e interpretados. É uma maneira de compreender não apenas o que uma mensagem diz, mas também como ela faz sentido.

Durante muito tempo, os estudos semióticos se concentraram especialmente na linguagem verbal e nos textos escritos. Com o desenvolvimento do campo, porém, outros objetos passaram a ser investigados, incluindo imagens, sons, objetos, práticas sociais e formas de comportamento. A roupa, por exemplo, não serve apenas para cobrir o corpo. Ela também pode comunicar valores, expressar identidades e revelar aspectos da história de uma sociedade. O mesmo vale para um perfume, uma propaganda, um filme ou uma publicação nas redes sociais. Cada um desses objetos pode produzir diferentes sentidos, dependendo de como é construído, de onde circula e de quem entra em contato com ele.

Hoje, essa capacidade de interpretar mensagens se tornou ainda mais importante. Somos expostos diariamente a uma quantidade enorme de informações, distribuídas por diferentes plataformas e suportes. Imagens, vídeos, músicas e textos são produzidos e compartilhados em velocidades cada vez maiores, inclusive por sistemas de inteligência artificial generativa. Nesse cenário, não basta saber ler. Precisamos compreender como as mensagens são construídas, quais valores colocam em circulação, que emoções procuram despertar e como podem influenciar nossa percepção da realidade. A semiótica oferece ferramentas para investigar essas questões.

É nesse contexto que a pesquisa em semiótica mantém sua relevância e encontra novas possibilidades de aplicação. Na Universidade de São Paulo, o Grupo de Estudos Semióticos da USP (GES-USP) reúne pesquisadores interessados no desenvolvimento desse campo. Na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), os trabalhos da professora Clotilde Perez exploram as relações entre comunicação, consumo, marcas e produção de sentidos. Essas são algumas das iniciativas que mostram como a semiótica pode contribuir para compreender fenômenos que fazem parte da nossa vida cotidiana.

Na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), a professora Claudia Regina Garcia Vicentini, vinculada à pós-graduação em Têxtil e Moda, abre espaço para investigações que utilizam a semiótica na análise da moda e de seus objetos. Orientada pela professora Claudia, minha pesquisa investiga perfumes assinados por estilistas brasileiros, procurando compreender como esses produtos expressam valores culturais e estabelecem relações com a moda, o corpo e a identidade. Um perfume, afinal, não é apenas uma composição de matérias-primas aromáticas. Ele também envolve imagens, narrativas, memórias, sensações e referências culturais que participam da construção de seus significados.

Ao reunir diferentes iniciativas de pesquisa, a USP reafirma a importância da produção de conhecimento para ampliar nossa compreensão do mundo. Em uma sociedade marcada pela circulação acelerada de informações, pela desinformação, pelas imagens manipuladas e pelas mensagens produzidas em massa, desenvolver uma leitura crítica se torna fundamental. A semiótica nos ajuda a perguntar não apenas se uma mensagem é verdadeira ou falsa, mas também como ela constrói seus efeitos de sentido, que valores mobiliza e de que maneira procura nos convencer.

Como todo campo de conhecimento, a semiótica se transforma continuamente. Suas bases teóricas são retomadas, discutidas e renovadas por pesquisadores que investigam novos objetos e desafios. Aprender a interpretar o mundo é um exercício permanente, e compreender como os sentidos são produzidos pode nos tornar leitores mais atentos, críticos e conscientes. Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes da semiótica para o nosso tempo: ajudar a perceber que, por trás de cada mensagem, há escolhas, estratégias e maneiras particulares de construir a realidade.

(*) Bruno Dalto do Nascimento, mestrando da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

 

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