Quando o mundo parece barulhento demais
Durante muito tempo, o autismo foi imaginado com um rosto muito específico. A criança que não olha nos olhos, que não fala, que se isola, que repete movimentos, que parece distante do mundo. Essa imagem estreita fez com que muita gente chegasse à vida adulta sem jamais imaginar que poderia estar no espectro. Porque algumas pessoas aprendem cedo a fazer aquilo que o mundo espera delas. Aprendem a sorrir na hora certa, a olhar nos olhos, a participar de conversas, a observar como os outros fazem amigos e a repetir comportamentos que parecem naturais para todo mundo, menos para elas. Aprendem, enfim, a caber. O que quase ninguém percebe é quanto pode custar viver assim.
Há adultos que passaram a vida inteira sentindo que existia alguma coisa diferente neles, mas nunca encontraram palavras para dizer o que era. Sabiam que as coisas pareciam mais cansativas. Que determinados lugares incomodavam demais. Que algumas conversas exigiam uma espécie de esforço invisível. Que mudanças de planos provocavam uma irritação ou uma angústia difícil de explicar. Que depois de uma festa, de uma reunião ou de um dia inteiro cercado de pessoas, havia uma necessidade quase física de silêncio. E, como não havia uma explicação, muitas vezes veio a culpa. “Sou antissocial.” “Sou complicada.” “Sou sensível demais.” “Não sei conviver.” “Tem alguma coisa errada comigo.” Talvez não houvesse nada errado. Talvez houvesse apenas uma maneira diferente de perceber o mundo que nunca foi compreendida.
Um dos sinais que pode aparecer no adulto autista é justamente essa sensação persistente de estar sempre aprendendo as regras de um jogo que os outros parecem conhecer intuitivamente. A pessoa observa. Copia. Experimenta. Corrige. Descobre que determinada expressão facial é esperada, que existe uma maneira socialmente adequada de responder, que certas perguntas não são realmente perguntas, que algumas pessoas dizem uma coisa querendo dizer outra. Aprende a interpretar ironias, indiretas, gestos, pausas e silêncios. Aprende a parecer espontânea. E, às vezes, fica tão boa nisso que ninguém percebe o esforço. Nem ela mesma.
Esse esforço tem nome: camuflagem social. É uma tentativa de esconder ou compensar características autistas para conseguir circular em um mundo construído a partir de determinadas regras sociais. O problema é que passar anos interpretando um papel pode produzir uma exaustão profunda. Porque uma coisa é conversar. Outra é conversar enquanto se monitora o tempo inteiro: “Será que estou olhando demais? Será que estou falando demais? Será que minha resposta foi estranha? Será que essa pessoa está brincando? Será que deveria rir agora?” A conversa deixa de ser simplesmente encontro e passa a ser também vigilância.
E talvez por isso alguns adultos sejam considerados muito sociáveis e, ainda assim, precisem desaparecer depois de algumas horas de convivência. Não porque não gostem das pessoas. Não porque sejam frios. Não porque não tenham afeto. Às vezes é justamente o contrário. Podem desejar profundamente vínculos, intimidade, amizade e pertencimento, mas precisar de um tempo enorme para recuperar-se depois das demandas sociais. Amar pessoas e precisar de silêncio não são coisas incompatíveis.
Também existe uma relação particular com a rotina. Para algumas pessoas, saber o que vai acontecer não é apenas uma preferência. É uma forma de organizar o mundo. Uma mudança inesperada pode provocar um desconforto muito maior do que os outros conseguem compreender. Uma viagem que muda de horário, um compromisso cancelado de última hora, uma alteração no caminho habitual, uma visita inesperada, uma mudança de planos. Para quem está de fora, parece pequeno. Para quem está vivendo, pode ser como se alguém tivesse puxado o chão alguns centímetros para o lado. Não é necessariamente teimosia. Às vezes é a necessidade de previsibilidade para conseguir manter alguma sensação de controle sobre um mundo que já oferece estímulos demais.
E há os estímulos. O barulho que parece atravessar o corpo. A luz que incomoda. O cheiro que ninguém mais percebe. A roupa cuja textura se torna insuportável. A etiqueta que parece uma agressão permanente contra a pele. O restaurante em que várias pessoas falam ao mesmo tempo e a música está alta demais. A sensação de chegar em casa depois de determinado ambiente e precisar ficar sozinho, no escuro, em silêncio, sem conversar com ninguém. Para algumas pessoas autistas, o mundo sensorial pode ser muito mais intenso. O que para alguém é apenas barulho, para outra pessoa pode ser uma avalanche.
O corpo também pode encontrar suas próprias maneiras de se regular. Mexer as pernas, balançar o corpo, brincar com objetos, repetir movimentos, tocar determinadas texturas, organizar coisas de uma determinada maneira. Nem todo comportamento repetitivo é autismo, mas, em algumas pessoas, esses movimentos ajudam a diminuir tensão, organizar sensações e recuperar equilíbrio. São pequenas maneiras que o corpo encontra de dizer: “isso está demais”.
Há ainda os interesses intensos. E não necessariamente são interesses considerados estranhos. Uma pessoa pode apaixonar-se profundamente por literatura, história, música, animais, medicina, cinema, tecnologia ou qualquer outro assunto. Pode pesquisar durante horas, lembrar detalhes que ninguém mais lembra, perceber informações que passam despercebidas para os outros e experimentar uma satisfação enorme quando consegue mergulhar naquele universo. Não é apenas gostar. É uma espécie de concentração profunda, uma porta pela qual a pessoa entra e, por algum tempo, o mundo parece fazer mais sentido.
Talvez seja justamente isso que torne tão perigoso procurar o autismo apenas naquilo que é visível. Há pessoas extremamente inteligentes, comunicativas, produtivas e bem-sucedidas que passaram décadas sem diagnóstico. Algumas trabalham, casam, têm filhos, ocupam cargos importantes, fazem faculdade, viajam, mantêm uma vida social aparentemente normal. Mas a aparência de funcionamento não conta tudo. Uma pessoa pode dar conta de muitas coisas e pagar um preço enorme por isso.
Na psicologia, é importante olhar não apenas para aquilo que alguém consegue fazer, mas também para o esforço necessário para conseguir fazer. Essa diferença é fundamental. Porque duas pessoas podem participar da mesma reunião, cumprir a mesma tarefa e voltar para casa com experiências completamente diferentes. Uma termina o dia cansada. A outra termina o dia exausta, precisando de silêncio, isolamento e tempo para voltar a sentir que existe dentro do próprio corpo.
É também por isso que alguns adultos chegam ao consultório depois de anos tratando ansiedade, depressão, crises, dificuldades de relacionamento ou uma sensação persistente de inadequação. Não significa que esses diagnósticos estejam necessariamente errados. Eles podem coexistir com o autismo. Mas, em algumas histórias, existe uma pergunta que nunca foi feita: quanto dessa ansiedade é consequência de passar a vida tentando funcionar em um mundo que exige uma forma de funcionamento que não corresponde inteiramente àquela pessoa?
O diagnóstico de autismo, quando existe, não deve ser encontrado em uma lista de características na internet. Ser sensível a barulho, gostar de rotina, preferir ficar sozinho ou ter interesses intensos não é suficiente para definir alguém como autista. A avaliação precisa considerar a história do desenvolvimento, as características presentes ao longo da vida, a comunicação, as relações, os comportamentos, a experiência sensorial e o impacto de tudo isso no funcionamento da pessoa. É preciso olhar para a história inteira, não para uma fotografia.
E talvez seja essa uma das partes mais bonitas — e também mais dolorosas — do diagnóstico tardio: perceber que determinadas lembranças da infância podem ganhar outro significado. Aquela criança que preferia brincar sozinha. Aquela adolescente que nunca entendeu completamente as regras das amizades. Aquela pessoa que precisava saber antecipadamente tudo o que aconteceria. Aquela que chegava de uma festa e queria ficar sozinha. Aquela que parecia exageradamente sensível aos sons, aos cheiros, às mudanças. Aquela que se esforçava tanto para parecer igual aos outros.
De repente, algumas peças se aproximam.
Isso não significa reescrever a própria vida como se tudo tivesse sido causado pelo autismo. Significa poder olhar para ela com menos crueldade. Talvez aquela pessoa não fosse inadequada. Talvez estivesse tentando sobreviver a um mundo que nunca lhe explicou suas regras.
Falar sobre autismo em adultos também é falar sobre pertencimento. Sobre o quanto a sociedade ainda confunde diferença com defeito e adaptação com obrigação. Existe uma diferença enorme entre aprender estratégias que ajudam uma pessoa a viver melhor e exigir que ela esconda permanentemente quem é para não incomodar os outros. O objetivo do cuidado psicológico não deveria ser transformar uma pessoa autista em alguém mais conveniente. Deveria ser ajudá-la a compreender seu funcionamento, reconhecer seus limites, desenvolver recursos, construir relações possíveis e encontrar ambientes nos quais não precise passar a vida inteira representando.
Talvez a pergunta mais importante, depois de tantos anos tentando ser como os outros, não seja mais “por que eu não consigo funcionar como todo mundo?”. Talvez seja “o que eu preciso para viver bem sendo quem eu sou?”. Não é uma pergunta pequena. Para algumas pessoas, ela pode significar o começo de uma vida inteira compreendida de outra maneira.
Porque há pessoas que passaram anos acreditando que eram difíceis, frias, exageradas, antissociais, rígidas ou sensíveis demais. Algumas passaram a vida tentando diminuir aquilo que sentiam para não parecer inadequadas. Outras aprenderam a sorrir enquanto estavam cansadas, a permanecer em lugares que as sobrecarregavam, a aceitar mudanças que as desorganizavam e a responder socialmente como esperavam que respondessem. Até que um dia descobrem que talvez não precisassem ter passado a vida inteira lutando contra a própria maneira de existir. Talvez o mundo não tenha ficado menos barulhento. Mas, finalmente, elas descobriram por que o barulho doía tanto.
(*) Cristiane Lang é psicóloga clínica especialista em Oncologia pelo Instituto Albert Einsten em SP.
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