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Proteger a água é preparar o território para um clima em transformação

Por Patrícia Iglecias (*) | 28/10/2026 12:30

Aágua talvez seja o elemento que torne mais visíveis os efeitos das mudanças climáticas na vida cotidiana. Períodos prolongados de estiagem, chuvas concentradas e intensas, enchentes, alterações na disponibilidade dos recursos hídricos e pressões crescentes sobre o abastecimento mostram que a crise climática não se manifesta apenas pelo aumento da temperatura média do planeta. Ela chega às cidades, ao campo e às casas pela água, pela falta, pelo excesso ou pela deterioração de sua qualidade.

Essa relação deverá ocupar espaço importante nas discussões que antecedem a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP31), que será realizada de 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia. A conferência chega em um momento no qual o debate climático internacional procura avançar na definição de compromissos para sua implementação. Adaptação, resiliência das cidades, segurança alimentar, infraestrutura, conservação dos ecossistemas e segurança hídrica passam, portanto, a fazer parte de uma mesma equação.

Os dados científicos ajudam a compreender a dimensão desse desafio. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que aproximadamente metade da população mundial enfrenta escassez severa de água durante pelo menos parte do ano, considerando fatores climáticos e não climáticos. O organismo também aponta que as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana estão intensificando o ciclo hidrológico e agravando vulnerabilidades já existentes. Cerca de 60% das intervenções de adaptação analisadas pelo IPCC surgem em resposta a riscos relacionados à água.

Essa constatação modifica a maneira como devemos compreender a gestão dos recursos hídricos. Cuidar da água não significa apenas garantir o abastecimento. Significa proteger o território no qual ela circula, recuperar ecossistemas, conservar o solo, preservar a vegetação, melhorar a infiltração, proteger rios e aquíferos e preparar cidades e áreas rurais para eventos climáticos cada vez mais extremos.

No Estado de São Paulo, essa discussão tem uma história que merece ser rememorada. Em 2015, quando eu exercia o cargo de secretária estadual do Meio Ambiente, participamos da implantação do Programa Nascentes, uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo que procurava aproximar duas questões que já se mostravam inseparáveis: restauração ecológica e proteção dos recursos hídricos, num período marcado por uma das mais graves crises hídricas vividas pelo Estado.

O programa foi concebido para promover a restauração ecológica e, simultaneamente, proteger os recursos hídricos. Sua meta inicial previa a recuperação de 4.464 hectares de matas ciliares, com o plantio de aproximadamente 6,3 milhões de mudas de espécies nativas, prioritariamente nas bacias hidrográficas do Alto Tietê, Paraíba do Sul e Piracicaba-Capivari-Jundiaí, regiões que concentram dezenas de milhões de habitantes.

Em março daquele ano, o primeiro projeto de restauração foi lançado em Piracaia, em área de mata ciliar degradada às margens do rio Cachoeira, integrante do Sistema Cantareira. Pouco depois, uma nova frente foi iniciada em Jacareí e outras iniciativas se seguiram, reunindo proprietários rurais, empresas com obrigações de compensação ambiental, organizações responsáveis pela restauração e poder público.

Havia nessa estrutura um princípio que continua atual: direcionar recursos e obrigações ambientais para áreas nas quais a restauração pudesse produzir benefícios ecológicos e hídricos relevantes.

Recuperar a vegetação ao redor de nascentes, córregos, rios e reservatórios significa proteger margens, reduzir processos de erosão e assoreamento, favorecer a regularização das vazões e criar condições para a recuperação da biodiversidade.

Cinco anos depois de sua criação, o Programa Nascentes havia alcançado 20 mil hectares de matas ciliares em processo de restauração em mais de 400 municípios paulistas, envolvendo o equivalente a mais de 33 milhões de mudas. Em 2022, o programa passou a integrar uma estrutura mais ampla de políticas de restauração, com a reorganização promovida pelo Programa Refloresta-SP. E permanece ativo: bancos de áreas, projetos de restauração e mecanismos de cumprimento de obrigações ambientais continuam utilizando a estrutura construída pelo Nascentes. Onze anos depois, entretanto, podemos olhar para essa experiência sob uma perspectiva adicional.

Se em 2015 a proteção das nascentes e das matas ciliares respondia de maneira imediata à necessidade de restauração ambiental e à grave crise de abastecimento enfrentada naquele momento, hoje sabemos que recuperar esses ecossistemas também significa construir capacidade de adaptação às mudanças climáticas.

Não se trata de substituir uma interpretação pela outra. Trata-se de ampliá-la. A restauração ecológica, a proteção de mananciais e as chamadas soluções baseadas na natureza passaram a integrar as estratégias utilizadas internacionalmente para aumentar a resiliência dos territórios. Em um planeta sujeito simultaneamente a secas mais severas, chuvas extremas, enchentes e pressões crescentes sobre a produção de alimentos e o abastecimento urbano, proteger a água exige pensar a paisagem como um sistema.

Essa visão integrada aparece também no caminho para Antália. Em setembro, às vésperas da COP31, discussões realizadas na própria Turquia colocaram segurança hídrica, biodiversidade e soluções baseadas na natureza entre os temas associados à resiliência local. Em regiões agrícolas, o debate incorpora ainda a relação entre água, produção de alimentos e mudanças climáticas. É uma demonstração de que o problema deixou definitivamente de pertencer a um único setor.

A ciência tem papel fundamental nessa mudança de escala. Na USP, pesquisas realizadas em diferentes áreas mostram que a segurança hídrica depende de soluções que começam muito antes de a água chegar às torneiras. Elas envolvem conservação dos ecossistemas, monitoramento, saneamento, tratamento e reúso, gestão das águas subterrâneas, agricultura, planejamento territorial, inovação tecnológica, governança e educação ambiental.

O Programa USP Sustentabilidade (USPSusten) é um exemplo dessa abordagem. Criado para aproximar a produção acadêmica de problemas concretos da gestão ambiental e das políticas públicas, o programa reúne estudos sobre recursos hídricos, mudanças climáticas, biodiversidade, saneamento, energia, resíduos, segurança alimentar e cidades resilientes.

Entre os trabalhos desenvolvidos estão pesquisas voltadas à automação de análises em estações de tratamento de água e estudos sobre monitoramento e produção de água de reúso em sistemas de tratamento de águas e esgotos da própria Universidade.

Outros trabalhos desenvolvidos no âmbito do programa analisaram possibilidades de reaproveitamento de águas residuárias na agricultura, produção de energia a partir de resíduos orgânicos, monitoramento da qualidade da água, gestão das águas subterrâneas e recarga de aquíferos. São exemplos de como uma universidade pode reunir diferentes especialidades para compreender o ciclo da água de forma integrada: da chuva ao solo, dos aquíferos aos rios, do abastecimento ao saneamento e, finalmente, ao oceano.

Há ainda uma dimensão frequentemente subestimada: a governança. Pesquisa desenvolvida no âmbito do USPSusten sobre comunicação na gestão de recursos hídricos mostrou que a complexidade técnica do setor muitas vezes dificulta sua compreensão pela sociedade. O estudo reforça que políticas ambientais dependem tanto de conhecimento técnico, como também de capacidade de comunicar, estabelecer responsabilidades, produzir indicadores e envolver a população.

Esse conjunto de experiências revela uma das contribuições mais importantes das universidades para a agenda climática. A Universidade não é apenas o lugar onde os problemas são estudados. Ela pode funcionar como espaço de experimentação, avaliação e desenvolvimento de soluções que posteriormente alcancem a sociedade e as políticas públicas.

Foi essa aproximação entre ciência, poder público, setor privado e sociedade que defendemos, em 2023, após a Conferência das Nações Unidas sobre a Água, realizada em Nova York depois de um intervalo de 46 anos. Naquele momento, já era evidente que segurança hídrica, segurança alimentar, manutenção dos ecossistemas, adaptação às mudanças climáticas e circularidade da água não poderiam continuar sendo discutidas separadamente.

Três anos depois, essa integração se torna ainda mais necessária. A COP31 acontece em uma fase na qual o sistema internacional do clima procura transformar metas em implementação. A nova Agenda Global de Ação Climática para 2026-2030 foi estruturada para acelerar soluções e ampliar a cooperação entre governos e atores não estatais, com objetivos compartilhados e planos de implementação. A própria presidência da COP31 tem enfatizado que o encontro de Antália deverá buscar resultados concretos e aplicáveis.

Nesse contexto, a segurança hídrica não pode ser tratada isoladamente. Ela depende das florestas que protegem os mananciais, dos solos que recebem a chuva, das cidades que precisam conviver com secas e enchentes, da agricultura que depende da disponibilidade de água, do saneamento que determina sua qualidade e de instituições capazes de planejar para um clima diferente daquele sobre o qual construímos nossas cidades e nossos sistemas produtivos.

Talvez seja essa uma das principais lições que a trajetória iniciada com experiências como o Programa Nascentes pode oferecer ao debate atual. Em 2015, diante de uma grave crise hídrica, recuperar matas ciliares e proteger nascentes era uma resposta concreta a um problema que já estava diante de nós. Em 2026, continuamos precisando recuperar nascentes e matas ciliares, mas compreendemos com maior clareza que essa ação pertence a uma estratégia muito mais ampla de adaptação e resiliência climática.

A ciência permite estabelecer essas conexões. A política pública permite transformá-las em escala. E a Universidade tem a responsabilidade de aproximar essas duas dimensões. Às vésperas da COP31, talvez seja importante lembrar algo aparentemente simples: nenhuma grande estratégia climática será bem-sucedida se perdermos de vista o território onde seus efeitos realmente serão sentidos.

(*) Patrícia Iglecias é superintendente de Gestão Ambiental da USP e coordenadora do USPproClima

 

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