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O Aristóteles do Uber

Por Gillianno Mazzetto (*) | 23/10/2026 11:03

Caro(a) conviva,

Eu estava atrasado. Digo isso logo, para que você não me imagine sereno, contemplando a manhã curitibana pela janela. O aplicativo prometia sete minutos que viraram vinte e cinco, e o trânsito tinha decidido, como faz em certas sextas-feiras, que ninguém chegaria na hora marcada.

O motorista se chamava Paulo. No rádio, baixinho, uma música cristã falava de esperar com fé. Eu, que não esperava com fé coisa nenhuma, conferia o relógio a cada sinal fechado. Conversa vai, conversa vem, Paulo contou que o filho estava internado. Contou também da separação recente. Falava sem pedir pena, com a sobriedade de quem segue trabalhando porque a vida não avisa quando vai desabar. E então, entre uma freada e outra, soltou: “O hábito nos ajuda a chegar à perfeição.”

Concordei como se concorda com motorista de aplicativo, com um “é verdade” meio automático. Mas minha mente, essa criança que nunca aprendeu a ficar quieta no banco de trás, já tinha saído correndo. Este homem é aristotélico, pensei. Paulo está falando de areté e não sabe.

Areté é a palavra grega que traduzimos por “virtude”, mas que quer dizer, antes de tudo, excelência. A areté de uma faca é cortar bem. A de um cavalo é correr bem. A de um ser humano, para Aristóteles, é realizar plenamente aquilo que ele pode ser. No segundo livro da Ética a Nicômaco, há quase vinte e quatro séculos, ele avisa que ninguém nasce virtuoso. A natureza nos dá a aptidão, e o hábito faz o resto. Tornamo-nos justos praticando a justiça e corajosos praticando a coragem, assim como alguém se torna tocador de cítara tocando cítara.

O detalhe incômodo vem logo em seguida, e quase ninguém o cita: é também tocando cítara que se fazem os maus tocadores. O mesmo exercício que forma o virtuoso forma o desastre. O hábito não tem opinião moral e obedece à direção que lhe damos. Aristóteles ainda brinca com uma vogal. Em grego, éthos, com e breve, é costume, e êthos, com e longo, é caráter. Uma letra separa o que fazemos todo dia daquilo que somos.

O sinal abriu, andamos dez metros, e o sinal fechou de novo. No rádio, o louvor seguia. Ocorreu-me que a cena tinha mais uma camada. No século XIII, Tomás de Aquino levou Aristóteles para dentro do pensamento cristão e definiu a virtude como habitus, uma disposição firme construída pela repetição do bem. Paulo, com seu louvor e sua frase, estava sentado sobre oito séculos de conversa entre Atenas e Jerusalém, sem precisar de nenhuma nota de rodapé.

Nosso tempo prefere outra pregação. Inglês fluente em noventa dias, corpo novo em vinte e um, primeiro milhão antes dos trinta. A vitrine mostra o pódio e esconde os treinos das cinco da manhã. Mostra o livro lançado e esconde as madrugadas de reescrita. Vende-se a colheita sem a lavoura, e a gente compra, porque a promessa é doce e o esforço não rende boa foto.

Até a frase mais famosa de Aristóteles sobre o tema caiu nessa armadilha. “Somos aquilo que fazemos repetidamente” não é dele. É do historiador Will Durant, que em 1926 resumiu assim o pensamento do grego. A internet repetiu tanto que a frase virou citação. Nada mais aristotélico do que um erro que se torna verdade à força do hábito.

O mito do resultado sem esforço não é perigoso por ser falso, mas por ser confortável. Ele nos convence de que a excelência é um evento, quando ela é um processo. E nos distrai de uma constatação simples: acabamos nos tornando aquilo em que colocamos energia e tempo. Não o que desejamos, não o que declaramos, não o que prometemos em primeiro de janeiro, mas aquilo em que, de fato, gastamos as horas.

Vale para o bem e vale para o mal. Ninguém acorda alcoólatra, cínico ou mesquinho. O vício também é obra de paciência, um débito automático que sai da conta todos os dias em parcelas tão pequenas que nem notamos. A “só mais uma” taça, o “só mais um” vídeo, a “só mais uma” desculpa. Até que um dia abrimos o extrato e descobrimos um patrimônio inteiro acumulado naquilo que jamais quisemos possuir.

Vício e virtude são duas contas no mesmo banco, e o depositante é sempre o mesmo. O banco não pergunta onde queremos aplicar. Quem responde é a agenda, é o lugar para onde vai a nossa atenção quando ninguém está olhando. Os juros compostos trabalham para os dois lados com a mesma indiferença. William James, um dos pais da psicologia moderna, escreveu em 1890 que estamos o tempo todo tecendo o próprio destino, e que nenhum pequeno gesto, bom ou mau, passa sem deixar marca.

Falo com conhecimento de causa. Sou, há anos, um investidor dedicado da impontualidade. Ninguém nasce atrasado. Atrasar-se é um ofício que exige método: o “só mais um e-mail” antes de sair e a fé inabalável de que Curitiba às oito é igual a Curitiba às seis. Naquela manhã, no banco de trás, eu apenas recolhia os dividendos de uma carteira montada com muito zelo.

Mas o que me ficou não foi a filosofia involuntária do Paulo. Foi o lugar de onde ela vinha. Havia um filho no hospital, um casamento desfeito, um trânsito impossível e um passageiro impaciente. E ali estava ele, dirigindo com cuidado, com a conversa gentil e o rádio ligado. Talvez, para Paulo, o hábito não seja só um caminho para a perfeição. Talvez seja corrimão. Quando a vida desaba, não é a inspiração que nos segura, porque a inspiração só aparece em dia de sol. O que nos sustenta na escada escura é o que fomos construindo antes, repetição por repetição, nos dias em que nada parecia estar em jogo.

Aristóteles, recorrendo a um provérbio já antigo em seu tempo, lembrava que uma andorinha só não faz a primavera (nós, por aqui, a mandamos fazer verão), e que um único dia não basta para tornar alguém feliz: a vida boa se mede pela vida inteira. Paulo não estava num bom dia. Mas estava sendo, num dia ruim, exatamente aquilo que vinha praticando ser.

Cheguei atrasado, claro. Desci, agradeci, e o carro seguiu devagar no trânsito, rumo ao próximo passageiro e a mais um dia daquela mesma rotina que, desconfio, era o que mantinha o Paulo inteiro. Pela janela entreaberta, ainda dava para ouvir a música.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e PhD em Psicologia.

 

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