André Luiz Alvez e o romance ‘o santo de cicatriz’
O escritor André Luiz Alvez, para escrever seu romance O santo de cicatriz, valeu-se, inicialmente, de seu dom artístico inquestionavelmente alimentado pela forma intensa com que vive dentro da tradição oral pantaneira. Com 336 páginas, publicado pela Life Editora, em 2023, tem a Apresentação “Do regionalismo à arte” do escritor Samuel X. Medeiros. Nas suas palavras, a obra está integrada a uma existência com “traços do realismo fantástico ou mágico”.
A escolha desse gênero vem em substituição à literatura oral pantaneira. Nas palavras da narrativa, um outro aspecto lhe chamou atenção: “[...] apropria-se da prática de lidar com a realidade e mistério e, nesse tom, inventa a história possível.” Dessa forma, a história contada na expressão “Dizem os pantaneiros” é um misto de lembranças e atualizações, ao passo que a mensagem, ao ser transmitida ao leitor, recorre à memória de uma figura lendária instalada no personagem São Damião.
Assim, o narrador, em seu tempo e lugar, informa sobre a identidade dos pantaneiros, podendo revelar dados do cotidiano em um suporte tradicional de contar histórias. Leia-se um espaço que participa do enredo: “A fazenda Três Marias, num passado remoto, pertenceu à família de Clara, a prometida de Miguel, filha de Francisco, mas foi vendida a Deodato após uma tragédia.” É um dos trechos construídos pelas histórias que circulam entre as pessoas. Acima, uma ilustração referente ao fatídico episódio em que as águas tragaram os corpos de Júlia e Ari, esposa e filho de Francisco (página 78-9).
Por isso, as narrativas vão apresentando variações quanto ao seu aspecto físico. Tudo enfeixa a originalidade das narrativas orais – em uma construção de novas histórias, e mais - cada narração tem uma situação singular, única:
Um pouco mais distante, na curva que dá no rio, duas sepulturas guardavam perenes, silenciosas, os corpos da mulher e do filho mais velho. [...] Cinco anos atrás, Dona Júlia havia falecido, juntamente com o filho mais velho, Ari, em um naufrágio no Rio Paraguai durante um final de semana a passeio em Corumbá. A morte veio rápida , traiçoeira, sem chances de fuga. [...] formou-se uma onda e o barco virou.
Revirando as águas... uma lancha virada. Essas são algumas das razões que levam o pantaneiro a temer esses lugares, a ter mais cuidado quando por ali passar, à medida que esses locais são considerados como marcados por histórias sobre o fim da vida nas curvas do rio onde o vento chega até assobiar. E o luto acompanha o lugar assombrado até hoje.
Um mesmo narrador pode contar várias histórias e as narrativas transpõem novas experiências, muitas vezes, atreladas ao sobrenatural de um universo criado pelos pantaneiros. É interessante notar a presença do vento, transmitindo lembranças ou interagindo com o narrador como um guia ao impor seus valores: “Assim que chegaram à frente da porteira da fazenda Três Marias, sentiram, como de hábito, um vento frio invadindo sem permissão os rostos já repletos de tristezas.”
Há outro registro que se guardou na memória, construída com o passar do tempo. Vem à tona uma expressão lírica musical que marcou muito Alvez: “No palco improvisado, especialmente contratados para animar a festa, o casal de músicos Jandira e Benitez[2] prosseguia a entoar belas guarânias.
“- Cante Recuerdos de Ypacaray, Jandira!”
Essa música rodeada de emoções era o retrato dos costumes da tradição pantaneira.
Surge o mito de São Damião:
“- Ah! É ele mesmo... O São Damião...” [...]_
“ - Santo o quê?
- São Damião! É o nome dele. Não me pergunte por que, só sei que esse é o nome dele e faz questão de ser chamado assim. Só atende por Damião quando é seu irmão que está falando...[de nome Cosme]”
Aquele homem da cicatriz vislumbrava o que fazia quando criança: “fazer mudar a direção do vento com a força do pensamento”. Era uma das ações do mito, a figura lendária que circula entre as pessoas, cuja existência podia ser comprovada; que tinha um poder extraordinário; que ocupa um espaço na construção do mistério – Camisão, a curva do rio, mudava a direção do vento, a gruta, Palmeiras, Aquidauana, os morros de Piraputanga. Não aparecem apenas como lugares geográficos. Não. Funcionam com lugares do maravilhoso, onde aquilo que parece impossível, pode acontecer, ao mesmo tempo, que dá sustentação à mente criativa do narrador. Interessante é implicar uma terceira pessoa que teve contato com o mito – os personagens Colega e Rita. Abaixo, os gêmeos cristãos São Cosme e São Damião e os irmãos Cosme e São Damião em ilustração do Chat GPT.
E a narrativa segue atualizando o retrato do Santo de cicatriz – o mito com a marca de Deus: “ Olhos abertos, arregalados, a cicatriz brilhando enquanto os cabelos tentavam escondê-la, no mesmo instante que o vento fazia contornos desorientados num forte zumbido, voltando bruscamente para o outro lado num silvo forte e prolongado...” Em outras, os lendários irmãos gêmeos e cristãos Cosme e Damião.
Esse momento de apresentação na página 84 - um encontro entre o narrador e o que está em sua mente – que se materializa no texto oral é denominado performance, isto é, encantado. Confirma-se a existência do personagem principal: “ [...] aquele guri mirrado, olhos fechados, cabelos ao vento, os braços abertos, as mãos esticadas [...]”.
Em uma segunda representação do mito Santo de cicatriz, percebe-se que o escritor Alvez constrói sua história através da voz e um ir-e-vir de lembranças de outros que falam e que ele, pesquisador, guarda consigo de anos e anos passados, ou seja, da vida como pantaneiro. É como se dissesse: ”Acreditem se quiser! Tem gente que vai contar o que eu aqui contei.”
Em outras palavras, o narrador deixa marcas e traços da identidade dos personagens, mas também engloba o passado envolvido no presente. A criação do próprio narrado vem de uma vivência no Pantanal e o narrador acredita, com total certeza, no que diz e no que ouviu dizer por outros narradores. É importante lembrar que a literatura oral tem uma característica fundamental - ela está integrada a uma existência coletiva. Assim, o conhecimento a respeito do mito São Damião, para o narrador, apresenta-se como uma espécie de atualização, um suporte vivificador da prática tradicional de contar histórias.
É a voz pantaneira classificada ora como mito ora como lenda. Assim, esse romance é marcado pela presença de lugares, aves, insetos, ervas santas, objetos, tocaia, tiros, costumes, culinária, cântico indígena, todos próximos do universo pantaneiro: “Na mata, os dias de outono começam com o canto da juruva e o voo rasante de tucanos desatinados.”; “No alvorecer de sol seco e frio de abril, só se ouvia o canto da passarada e sentia-se o cheiro de bosta de gado espalhado no ar.”; “A varanda tinha o cheiro de São Damião, uma mistura de chimarrão com charuto, o mesmo odor das outras seis fazendas espalhadas Pantanal adentro.”; Um borrachudo desavisado ousa pousar em seu braço cabeludo.” Ou seja, as informações que fazem parte dessa comunidade cultural.
A relevância do que se lê nessas páginas é ser um testemunho humano que é caracterizado como real e verídico; o narrador empenha sua palavra ao narrar os acontecimentos em que se manifesta este mito de nome São Damião, veterinário, paulista de Tupã, dono de seis fazendas – a Sol Dourado era uma delas e ficava na divisa do município de Miranda com a Nhecolândia, pertinho do rio Negro. As iniciais S e D, na placa dessa propriedade, combinavam com as letras de seu nome.
O mito do Santo de cicatriz possui um nome: São Damião. E pode ser uma constante em movimento que se encontra em vários lugares e com muitas transformações, como: “Às vezes é jaguar, noutras boi marruá. Afirmam que o sujeito pode levitar, transportar-se para outros lugares sem sair de onde está, que entra em uma gruta em Palmeiras e surge no instante seguinte nos morros de Piraputanga.”
É no encontro do narrador com o leitor que se tem o contato direto com o sobrenatural. A rigor, a narrativa liga-se à lenda de Cosme e Damião – que ocupa lugar de destaque na construção das identidades e relações sociais. Existe aqui uma nova ascensão do romance. No decorrer da leitura, observa-se que a prática de narrar possui uma natureza mais fragmentada, afiliada a gêneros e formatos diferentes. Elas podem estar encaixadas no Romantismo, Realismo, Naturalismo e Expressionismo, cujo tema principal talvez não seja a lenda anunciada e, sim, todos os estilos literários relacionados entre si como componentes de um único continuum.
De uma fase inicial aliada ao Realismo fantástico, a narrativa chega gradualmente ao espaço do interdiscurso que faz sempre ressoar, em grau mais ou menos visível, os valores e temores da região do Pantanal: “tiros, pólvora, riscos e mortes.”
Toda e qualquer troca de narrador se insere em uma cadeia histórica da qual se tornará um elo, um pacto entre os irmão Cosme e Damião. Dessa forma, este estudo deve ser analisado também como uma lenda compartilhada, inserida com seus sujeitos na construção da história – interpretada pela arte e o caráter criativo e subjetivo de Alvez.
Agora, existe um encadeamento de fatos e a intensa emotividade psicológica da arte na Capa de Mota Junior e a frase expressionista “Mudar a direção do vento com a força do pensamento...”. A imagem imprime inquietude, sensação transmitida pela utilização do preto, do cinza e do branco, além de suas formas alongadas, distorcidas que preenchem quase todo o espaço. Nessa Capa, um olho parado parece ter dor, uma cicatriz viva, uma faca da mesma cor. Uma lâmina cruel, um rosto abatido, um dolorido corte habitam o corpo.
O artista utiliza dos elementos do Expressionismo, mas também de outros estilos como o Naturalismo e o Realismo. A expressão do olhar, até mesmo, o tamanho em que está posicionado são características que chamam atenção, conseguindo representar o tom dramático e clássico expressionista em formas distorcidas unidas e sem sombra. A frase inscrita na obra aborda aspectos do fenômeno ligado ao protagonista São Damião com a “cicatriz no alto da testa, [que] parecia viva”.
Finalmente, o símbolo da cicatriz empregado como recurso no título O santo de cicatriz – símbolo e chave para se compreender a obra. Essa nomenclatura não cabe em uma só categoria, pois São Damião é um personagem que permanece entre o humano e o sobrenatural. Quando o texto afirma “basta querer”, atribui-lhe um poder extraordinário. E quando diz que pode aparecer como “jaguar ou boi maruá”, amplia ainda mais essa dimensão mítica; o personagem parece possuir uma ligação profunda com a natureza pantaneira.
Outro elemento muito rico é a capacidade de deslocamento. Ele entra em uma gruta em Palmeiras e, no instante seguinte, surge nos morros de Piraputanga. Isso rompe a lógica cotidiana. Não se trata simplesmente de alguém que viajou rapidamente de um lugar para outro: a narrativa apresenta um personagem que parece desafiar as próprias leis do espaço. Extraordinário! Esse recurso aproxima a narrativa do Realismo maravilhoso definido por Medeiros e das tradições lendárias, porque o extraordinário é apresentado quase naturalmente, como parte das histórias contadas naquele universo.
Cicatriz. Aqui está o grande símbolo do romance. Ela está acima do olho esquerdo, mas o mais importante não é apenas a marca física. É o significado que as pessoas atribuem a ela. Para alguns, é o sinal de Deus. Para outros, é uma marca feita pelo Diabo. Portanto, a cicatriz materializa no corpo do personagem a mesma dúvida que percorre toda a lenda: “Quem é esse homem ?” A cicatriz não responde. Pelo contrário – aumenta o mistério. Na ilustração acima, o personagem com a cicatriz bem visível e o Morro do Chapéu ao fundo, compõem o mistério desse homem pantaneiro.
Isso é muito bonito literariamente. Uma mesma marca pode ser interpretada de maneiras completamente diferentes. Para uns, representa eleição divina; para outros, uma ligação com o mal. Assim, a cicatriz se transforma em símbolo da própria ambiguidade do personagem.
Com isso, o personagem é construído pelo olhar daqueles testemunhos que contam sua história. O narrador não começa dizendo categoricamente “ele é um santo” ou “ele é uma criatura sobrenatural”. Ele diz, essencialmente: É isso que os pantaneiros contam.
E aí aparece uma questão muito interessante sobre a literatura de André Luiz Alvez: O que importa mais numa lenda é descobrir se aquilo realmente aconteceu ou
compreender por que as pessoas precisam contar aquela história.
Mostrando-se, dessa forma, o quão importante é apresentar outro detalhe particularmente bonito: O título não é “O Santo”, mas “A cicatriz do Santo”. O autor parece colocar no centro não uma certeza sobre a santidade da personagem, mas justamente a marca que provoca a dúvida sobre sua natureza.
Essa cicatriz, portanto, pode ser lida como uma espécie de fronteira entre o céu e a terra, entre o bem e o mal, entre o homem e o mito. Isso dá uma força enorme como abertura de uma narrativa lendária.
A leitura chama atenção para uma obra que nasce dentro da tradição oral pantaneira. A expressão “Dizem os pantaneiros” é fundamental. Não estamos diante de um personagem apresentado inicialmente como alguém cuja existência possa ser comprovada. Ele surge como uma figura lendária, construída pelas histórias que circulam entre as pessoas.
Os pantaneiros não conseguem dizer se o personagem é divino ou danoso; alguém que cura ou alguém que pode matar; um homem ou uma criatura capaz de assumir outras formas; uma presença ligada a Deus ou ao Diabo. Essa dúvida parece ser uma das chaves para compreender a obra.
Esse homem “muda a direção do vento com a força do pensamento” e isso sugere um poder que transforma a vontade em força da natureza. No personagem pantaneiro, essa imagem intensifica o mistério: o vento parece obedecer ao seu pensamento, mas permanece a dúvida sobre a origem desse dom — divina ou sombria. Na ilustração, as folhas e as correntes de ar envolvem seu olhar concentrado, com a cicatriz visível e a paisagem pantaneira ao fundo com a Serra de Maracaju.
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