A sala de espera enfeitada, por Gillianno Mazzetto
Novembro nasceu com o nome errado.
No calendário mais antigo de Roma, o ano começava em março, e novembro, de novem, nove, era o nono mês. Depois o ano mudou de lugar, passou a começar em janeiro, e ninguém se deu ao trabalho de rebatizar os meses do fim. Ficamos com um novembro que é o décimo primeiro e se chama nono, um mês que carrega no nome o endereço antigo, como quem se mudou há séculos e continua recebendo cartas na casa velha.
Desconfio que ele nunca se recuperou do deslocamento. É o único mês do ano que vivemos com a cabeça em outro.
Eu passei as duas últimas semanas morando em 2027. Orçamento, projetos e indicadores do ano que vem. Chego de manhã, abro a planilha, e o ano que ainda não começou já tem receita, despesa, meta e desvio. Já sei quanto ele vai custar, quanto deve render e onde provavelmente vai doer. Está tão bem cuidado, o meu 2027, que dá pena entregá-lo ao tempo, esse sujeito desleixado que bagunça tudo o que a gente arruma.
Enquanto isso, o mundo do lado de fora resolveu fazer a mesma coisa, só que com mais açúcar. O panetone ocupa há semanas o lugar de honra no supermercado, na ponta da gôndola, onde antes ficava aquilo que a gente de fato tinha ido comprar. E as salas, na instituição onde trabalho, começaram a ganhar enfeites de Natal, uma mais bonita que a outra, numa espécie de concurso que ninguém convocou e todo mundo disputa.
Até que, outro dia, entrei num setor e parei na porta.
Não dava para não parar. Estava tudo decorado, desde o batente, e a impressão era a de ter atravessado o portal errado: eu tinha ido tratar de um assunto de trabalho e cheguei à casa do Papai Noel. Só faltou alguém me perguntar se eu tinha sido um bom menino este ano, pergunta que quem está fechando orçamento prefere não responder em voz alta. O setor virou assunto de corredor. Uns achavam lindo, outros achavam cedo, e todos davam um jeito de passar por lá para conferir, que é a forma mais sincera de elogio que uma empresa conhece.
Confesso que ri. Ri por dentro, com aquele ar levemente superior de quem estava ali para tratar de coisa séria enquanto dezembro se adiantava em volta. E saí com uma pergunta que me acompanhou o resto da tarde: em que mês estava aquela gente?
Naquela noite, abri a planilha de 2027. As células estavam em verde e vermelho.
O setor enfeitado tinha se mudado para dezembro; eu tinha me mudado para o ano seguinte inteiro. A diferença entre nós era de pisca-pisca. Eles enfeitaram o futuro com bolas vermelhas, eu enfeitei o meu com células coloridas, verde para o que cresce, vermelho para o que preocupa. Também é decoração. Também é antecipação. Só é menos bonita, e ninguém faz fila no corredor para ver.
Blaise Pascal, que inventou uma máquina de calcular antes de se dedicar a calcular a alma, anotou nos seus Pensamentos que quase nunca nos detemos no presente. Lembramos do passado, antecipamos o futuro, e o tempo que de fato nos pertence atravessamos distraídos, como quem passa por um corredor a caminho de outra sala. E concluiu com uma frase que eu gostaria de não ter lido em novembro: “Assim, nunca vivemos; esperamos viver.”
Novembro virou isso, uma sala de espera. Ninguém mora numa sala de espera: a gente senta, folheia uma revista velha, confere o relógio, e cada minuto ali dentro só vale como distância até o momento em que vão chamar o nosso nome. É a sala de embarque de um aeroporto, onde nada é e tudo é um ainda. Não se vive o minuto; abate-se o minuto.
Mas eu contei só a parte bonita. Há outra razão para eu morar em 2027, e ela não é visão estratégica. É que 2027 ainda não errou. Nele, meta alguma foi perdida, projeto algum empacou, e a conversa difícil ainda não teve tempo de ficar para depois. Novembro, ao contrário, está cheio de pendências com o meu nome. Planejar o ano seguinte é a fuga mais elegante que um executivo conhece: ninguém desconfia de quem está olhando para o horizonte.
E o futuro que eu planejo com tanto zelo depende inteiramente do mês que estou abandonando. Estou construindo a casa nova sobre um chão que ainda não secou, e de costas para ele.
Volto então à porta daquele setor, agora com bem menos ar superior, porque desconfio que li a cena errado.
Quem enfeita uma sala em novembro está, sim, antecipando dezembro. Mas alguém teve de escolher onde cada coisa ficaria, gastar uma tarde nisso, achar que estava bonito e se divertir com o exagero. A antecipação deles coube no presente, foi feita com as mãos, aqui, numa tarde qualquer, como pede o coro que abre o Oratório de Natal de Bach: celebrar o que o Altíssimo fez hoje. Hoje, não em dezembro. A minha antecipação esvaziou o presente: eu estava sentado na sala, mas morando em outro ano. Eles transformaram a sala de espera em casa. Eu transformei a casa em sala de espera.
Não é a pressa que ofende o tempo. É a ausência.
Novembro continua recebendo cartas no endereço antigo. Eu é que me mudei sem deixar o novo.
Agora que estamos só nós dois, e antes que você volte à sua planilha, ao seu panetone e à lista de resoluções para janeiro já rascunhada em algum canto, deixo a pergunta que me fiz na porta daquele setor: quando chamarem o seu nome, lá em dezembro, você vai saber dizer onde passou novembro? E, se souber, vai ter coragem de dizer o que deixou lá?
(*) Gillianno Mazzetto é palestrante, autor de cinco livros, com formação em Harvard e na UC Berkeley.
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